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1 de novembro de 2006

O COBRÃO - Curiosidade

O cobrão é o nome que o povo dá a uma doença de pele caracterizada pelo aparecimento de pequenas vesículas que surgem, segundo a a crença, devido à circunstância das roupas interiores, quando se encontram a secar, terem estado em contacto com qualquer bicho peçonhento: cobra, osga, lagarto ou lagartixa, bichos esses que nelas deixaram, como se diz em Louriçal do Campo, o seu rastejo. É o veneno contido nesse rasto que, em contacto com a pele, desencadeia a doença.Para curar o doente repetia-se esta fórmula:

Rezado em cruz sete vezes:

Aqui te benzi, aqui te torne a benzer
Para que não cresças, nem inverdeças,
Nem juntes o rabo com a cabeça .

Depois a curandeira pega numa réstea de alhos e desenrola-se entre ela e o doente o diálogo seguinte:

Curandeiro: - Tu tens um cobrão?
Doente: - Ou terei ou não.
Curandeiro: - Corta-lhe a cabeça
Doente: - Corta tu ou não
Curandeiro: - Tu tens um cobrão?
Doente: - Ou terei ou não.
Curandeiro: - Corta-lhe o meio
Doente: - Corta tu ou não
Curandeiro: - Tu tens um cobrão?
Doente: - Ou terei ou não.
Curandeiro: - Corta-lhe o rabo
Doente: - Corta tu ou não

Por fim, queima-se a réstea de alhos e bota-se primeiro mel sobre a parte infectada e, em seguida, a cinza das résteas, para secar o mal.
Esta fórmula oferece a originalidade de apresentar estrutura em diálogo entre a rezadeira e a pessoa doente. Nesse diálogo, dois pormenores existem que se devem ser revelados: a primeira frase " tu tens um cobrão?" e a repetição quase contínua e exaustiva de "corta-lhe". A primeira frase patenteia o costume de se invocar o nome da doença no início da fórmula libertadora; e incidência repetitiva que surge no diálogo em relação a "corta-lhe" reside no facto de ser esta palavra forte, isto é, a palavra através da qual a rezadeira liberta a pessoa do mal que a aflige, a palavra que corta um laço que liga a pessoa à doença.O número de vezes necessário para eficácia das palavras é de sete. O gesto enfeitiçante é o sinal da cruz: ao fazer-se a cruz sobre qualquer coisa atraem-se as forças mágicas dos quatro pontos cósmicos, ideia reforçada pelo facto de o sentido esquerda – direita, ao qual o sinal da cruz obedece, representar simbolicamente o passar da morte à vida.A utilização do mel e das cinzas das résteas de alho, em conjunto com a fórmula libertadora, mostra nesta versão de Louriçal do Campo, uma dupla intenção: a de desligar a pessoa do mal, por um lado, e a de curar, por outro com o auxílio do mel e das cinzas das palhas de alho.

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