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1 de março de 2010

Uma vida ao compasso da música



Tem 77 anos, mas quem olha para o seu rosto já algo esculpido pelas tramas da vida, porém banhado por uma jovialidade luminosa no olhar, não lhe adivinha a idade. Dono de uma visão extraordinária e fora do comum para a música, recusa-se prontamente a admitir que nasceu com um dom. Prefere antes arriscar que a sua vida o presenteou com uma pequena habilidade, que em nada pode ser comparada aos verdadeiros génios da música, como Mozart, Richard Wagner ou Tchaikovsky. A sua força de carácter reside desde sempre na sua humildade genuína, que lhe permite admirar os melhores, sem reservas, mas que não o impede de seguir o caminho da exigente perfeição. Assim é Joaquim Cabral, mestre da Banda Filarmónica de Louriçal do Campo.

Depois de uma infância calcorreada pelos ritmos calmos que caracterizam as vivências da aldeia, Joaquim Cabral entra, aos nove anos, como aprendiz na Filarmónica da terra que o viu nascer, Louriçal do Campo, no concelho de Castelo Branco. Na altura, o seu pai pertencia à Comissão de Apoio para a criação da colectividade e daí provém o seu primeiro contacto com a música. Mas não foi uma caminhada fácil.

As artes musicais não eram encaradas como uma fonte válida de sustento, antes resultavam de espíritos sonhadores. “Não tenho posses para te manter a estudar numa escola de música”, costumava dizer-lhe o pai, que ensinou o filho a ser pedreiro e o obrigou a desenvolver a actividade até atingir a maioridade.

Joaquim desdobrava as horas do dia para que, além de fazer a vontade ao pai, conseguisse praticar, nos tempos livres, o seu sonho na Filarmónica.

Com somente 15 anos era um aluno que não passava despercebido ao ouvido sensível dos mais conhecedores.
Os mestres e os regentes que iam passando pela Banda já não dispensavam a sua ajuda para dar aulas de solfejo e de como tirar cavas das partituras aos elementos menos experientes do grupo. “Ó rapaz, tenho aqui esta partitura...tira-me lá um papel para trombone”, “Ó moço, vai lá dar lição àquele menino”, pediam-lhe, amiúde. Daí a substituir o regente da Banda em caso de ausência foi um pequeno passo.

Estava na flor da idade dos seus 18 anos.

Entretanto conheceu uma moça da terra. A sua alma preencheu-se, o amor tomou-lhe o coração. Casou.

Quando já tinha a sua filha mais velha, contava ele 24 anos, surgiu a oportunidade de ingressar na Banda da Companhia de Carris de Ferro de Lisboa. Foram tempos difíceis, esses. Esteve três longos meses longe da sua esposa e da menina, ainda pequena. Foi o tempo necessário para que conseguisse estabelecer uma nova vida na capital portuguesa, digna de receber os seus dois tesouros.

A Banda da Companhia de Carris contribuiu de forma decisiva na formação musical de Joaquim Cabral.
O estudo e treino intensos permitiram que o jovem se aventurasse pelos caminhos da composição. Começou por escrever algumas partituras simples e a instrumentá-las. Aos poucos ganhou a confiança suficiente para que não deixasse morrer o gosto, contando, hoje em dia, com uma vasta panóplia de músicas da sua autoria, desde marchas de rua a marchas fúnebres.


A sua estada de 10 anos em Lisboa permitiu ainda o aperfeiçoamento em clarinete e em outros instrumentos de sopro habituais nas Filarmónicas.
Mas o destino quis que ele volvesse ao seu território raiano. O regresso ficou escrito em 1964, quando a Banda do Instituto de São Fiel procurava um novo regente e o convidou a concorrer ao cargo. Joaquim Cabral entrou e aí permaneceu até à data da sua aposentação.

Durante esse período de tempo, concluiu igualmente com aproveitamento o 5º Ciclo de Aperfeiçoamento de Regentes, promovido pelo INATEL, em Lisboa. Esse foi, talvez, o seu ciclo de vida mais intenso e produtivo, uma vez que foi também convidado como regente para as Filarmónicas do Retaxo, de Idanha-a-Nova, de Silvares e da Covilhã. Em todas elas havia um músico mais habilitado que saía com as respectivas Bandas na sua ausência.

A vinda para o Louriçal marcou ainda o seu retorno à Banda Filarmónica da povoação, onde os primórdios da sua habilidade para a música tinham despertado. Agora, o mestre iria ajudar a despertar os dons mais tímidos e adormecidos que permaneciam incólumes pela aldeia.
A luta pela Banda da terra.


É pessoa muito respeitada no Louriçal. Por velhos e novos. Todos valorizam o seu carácter de ferro, que parece resistir a qualquer intempérie da existência e que sempre tem lutado contra ventos destrutivos que, por mais de uma vez, ameaçaram ruir a harmonia da Filarmónica.

Pela Banda, chegou a estar cerca de 70 horas fora de casa, pulando de aldeia em aldeia, de actuação em actuação.

Dormiu com o grupo em palheiros, sujeitou-se a alimentação deficiente, a demasiadas noites mal dormidas. A sua memória gravou com mais intensidade um dia em que acompanhou, logo de madrugada, os seus músicos a pé até à freguesia da Póvoa do Rio de Moinhos, que dista perto de 15 quilómetros do Louriçal. A festa prolongou-se até altas horas do dia seguinte, mas um longo caminho de regresso os esperava. Só com sorte conseguiam, de quando em vez, arranjar uma carroça para os transportar.

Fez muitos sacrifícios pela Filarmónica. Nem sempre lhe foi reconhecido o mérito do esforço. E, embora a Banda fizesse sucesso por onde passasse, não raras vezes o mestre sentiu tentação de deitar por terra tudo o que o seu suor ajudou a erguer. No momento seguinte, porém, a recompensa surgia, na maior parte das vezes, num modesto mas gratificante assomo. Joaquim Cabral há-de sempre relembrar, com uma emoção que lhe embarga a voz, o dia em que, numa Festa de São Fiel, os jovens que se divertiam no arraial começaram
a cantar com a Banda, criando um ambiente sonoro único. O espectáculo foi, obviamente, agraciado com enorme ovação e o regente sentiu, de novo, reflorescer um ânimo revigorado, que parecia começar a esbater-se.

Por amor à música, por amor ao ensino da música e pela paixão arreigada que sente pela sua terra, Joaquim Cabral lutou sempre para que a única colectividade resistente no Louriçal do Campo não perdesse a vida.

Ainda hoje, o mestre continua a transmitir diariamente a sua sabedoria aos cerca de 30 elementos que compõem o grupo actual. E, essencialmente, gosta do que faz. “Diz que ninguém está contente com o trabalho que possui, mas eu gosto do meu trabalho”, salienta, com merecido orgulho. Não tem qualquer problema em assumir que o seu elevado grau de exigência o leva, por vezes, a ferver em pouca água. Os ralhos têm de existir em certos casos mais lassos e preguiçosos; em pessoas que, segundo o regente, podem e devem fazer mais.

É o seu sentido de perfeccionismo que sobressai, nestas alturas, e que faz dele um grande professor e amigo. E não há actuação, normalmente nos concertos, em que não suba ao palco com um nervoso miudinho a incomodar-lhe o estômago.




Hoje, já praticamente não sai com a Banda. Começa a sentir que a sua idade já não permite grandes ausências. Além disso, a sua esposa encontra-se doente e a precisar continuamente dos seus cuidados. As suas três filhas têm vida já estabelecida, duas delas em Lisboa, pelo que se torna difícil estarem presentes na velhice dos pais.
Depois de cerca de 30 anos seguidos com a Banda Filarmónica do Louriçal a seu cargo, pensa que pode estar para breve a sua saída. Mas tem alguém, alguém do seu sangue, alguém a quem ama verdadeiramente, que poderá dar continuidade ao seu meritório trabalho: a sua filha que está a viver em Castelo Branco e que toca na Banda nas horas vagas, tal como o seu pai fazia noutros tempos, caminhando por entre partituras ao compasso da música da vida.


Fonte: http://www.adraces.pt/ficheiros/conteudos/1174410081Viver002.pdf

xxcucoxx

1 comentário:

António disse...

… é sem dúvida uma grande figura
do Louriçal não só como profissional mas também como ser humano. Tive o privilégio de pertencer à Banda na década de 70 com ele à frente desta e de facto apesar de eu ter apenas 13 anos tinha já nessa altura uma grande admiração pelo seu profissionalismo e carácter.

Nunca esquecerei o domingo da Festa do São Fiel de 1972, onde fiz a última actuação com a Banda, foi terminar a actuação e “apanhar” o carro de praça do Sr. Manel Luís para a estação de Castelo Novo para “apanhar” o comboio para Lisboa, estava a emigrar.

Quero aqui prestar uma singela homenagem ao Sr. JOAQUIM CABRAL do qual também ainda sou parente, que com a sua coragem, verticalidade e sabedoria vá dando por muitos anos continuidade à sua obra musical nomeadamente na Banda Filarmónica do Louriçal do Campo.

Um grande braço para o MAESTRO JOAQUIM CABRAL

António Catarino