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2 de novembro de 2010

Um país que renega a história é um país traidor

Um país que renega a história é um país traidor


28 de Outubro de 2010 às 16:02h

Não sei que força me impele a caminhar todos os dias para a terra onde nasci. Eu, que nela já nada tenho, a não ser os caminhos intemporais da infância, a mata de eucaliptos que calcorreei de bicicleta, a água cristalina fluindo para o tanque, e um tropel de imagens que se não descolam do imaginário do menino e adolescente que ontem fui. Mesmo hoje que a manhã solarenga resolveu descambar para uma tarde escura de trovoada iminente, com nuvens encasteladas em zaragata ruidosa e quase contínua.

O chapinhar já espaçado dos corpos na piscina, em frente, é canto de cisne neste definhar de verão que deixará de novo o sítio onde vim ao mundo, acabrunhado e deprimido, num isolamento avassalador que a meia dúzia de resistentes suporta, impotente e resignada. Tudo tem um fim. Talvez que a própria Natureza tenha também, um dia, o seu fim, de tanto estupro e violência.

Amanhã é Setembro. Há cinquenta Setembros São Fiel era ainda um pequeno condado de educadores, educandos, agricultores e artistas. Não se conhecia uma casa fechada, a menos que algum solitário se esquecesse de avisar que ia morrer. Nas noites cálidas de verão sem telenovelas nem discotecas, forasteiros de visita a familiares percorriam a estrada até ao monumento em grupos numerosos deixando os sentidos invadirem-se do cheiro a milho regado com a água pura que a serra mandava, ou a que o burro vendado pacientemente puxava da nora. Trocavam-se saudações a partir da varanda da casa tosca de granito onde nasci, a casa que é já outra, mas cujas paredes aproveitadas, barradas de cimento e cal, hão-de ser o sepulcro eterno do meu pranto silencioso a escorrer saudades e ressentimentos.

Hoje, quando o calendário determina o Inverno e com ele cai a noite cedo demais, sinto a alma aconchegada ao descortinar uma luz ténue que seja, por entre a vidraça de alguma casa velha. De resto, todo o pequeno casario é um ninho de sombras e cada casa fechada um jazigo de fantasmas inquiridores. Um carro que surja é uma esperança de companhia adiada. Aparece e some-se. E tudo retoma a quietude do assombramento.

Tudo aqui me arrasta para reminiscências adormecidas, mas indeléveis e indiluíveis.

Ao dobrar o alto da Soalheira, logo o avisto, ao longe, colado às escarpas da Gardunha, um edifício majestoso cujos cento e sessenta anos a incúria e a imbecilidade do poder não conseguiram diminuir na sua imponência. A ruína irreversível já tomou conta das entranhas. Mas por mais vidros e janelas que a força do vento e a fúria delinquente destruam, ele permanece ali como relicário apagado do progresso que deu sustento a gerações incontáveis, no passado.

Ao cruzar-me com ele, paro. Pararei sempre que a isso obrigue esta força estranha que me imobiliza ao aproximar-me. E como o cão fiel estaca esperando a ordem do dono, também o carro aguarda que eu contemple, mais uma vez, o gigante que deixaram morrer, mas continua de pé. Estranha forma de morrer! O meu olhar reverencial sobe ao mirante delimitado por varandins em ferro que a altura intimidativa impediu até hoje de alguém os desmantelar apenas pelo prazer mórbido de destruir. Então, um frémito percorre-me o peito e faz aflorar a lágrima costumeira da saudade e da revolta. Quando a verticalidade do gigante morto soçobrar às leis da física ou do camartelo da demência política, os seus destroços sepultarão parte de quem nasceu à sua sombra, mesmo defronte, embalado pelo clarim anunciador de alvoradas, e hoje, despertador tardio de sombras e nostalgias.

Aquilo que outrora foi reduto de cultura e reabilitação (daí o título de colégio), detentor de uma arquitectura invulgar, de traça conventual, alguém alvitrou, não há muito, fosse reestruturado em estância hoteleira. Chamaram-lhe visionário. O Ministério da Justiça desempenhando brilhantemente o seu papel de falso progenitor, gastou palavras e dinheiro em estudos que a alarvice cultural atirou para a hipocrisia da inviabilidade. O poder autárquico não quis o que outros não quiseram e seguiu-lhe os rastos, declinando deveres de preservação patrimonial.

Um país que renega a história do seu passado é um país traidor de memórias, um país parado na negação de compromissos ancestrais, um país vazio de heranças por deixar, um país a marcar passo na inércia da cobardia, um país sem rumo nem futuro. E sê-lo-á já. Mas cantando e rindo. E com muito futebol, de permeio.

Fernando Serra

fccserra@netcabo.pt

Fonte: http://www.reconquista.pt/noticia.asp?idEdicao=255&id=24095&idSeccao=2834&Action=noticia

2 comentários:

pedro joºao disse...

não conheço o autor deste artigo, contudo tenho que dar-lhe os parabéns pelo que escreveu. Nós os "Louriçalenses" conhecidos por cucosd eviamos ter orgulho na nossa terra pena é que ao longo destes anos quen pode fazer alguma coisa ´não o fez , e quem quer fazer não pode. Num estado de direito e num pais minimamente democrático, pergunto se o Louriçal do Campo não deveria ser indeminizado pelo estado portugûes, digo isto porque toda a nossa terra cresceu em redor do instituto de S.Fiel e da Tapada da Renda, com o fechar de S.Fiel toda a economia ou parte dela, do Louriçal morreu, hoije estamos limitados quer por edificios publicos, ou por terrenos, estamos a morrer aos poucos.temos que nos unir para alterar esta situação.


pedro joão

Anónimo disse...

Concordo plenamente, separados não conseguimos fazer nada.
E cada vez mais, sinto a nossa terra a ficar parada, com cada vez menos habitantes, tenho pena que isto esteja a acontecer à nossa terra.
Temos que fazer algo por ela.
Cumprimentos a todos os cucos.