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14 de abril de 2011

A Páscoa de Hoje a Páscoa de "Ontem"


Passam os tempos, ficam as memórias!! 

Lembro-me tão bem como se fosse hoje. No Domingo e Segunda-feira de Páscoa, Louriçal do Campo vestia-se de festa. Jesus, ressuscitado, entrava em nossas casas, especialmente limpas e perfumadas, numa simbiose perfeita entre cheiros, sons e cores (tarefa árdua para as senhoras donas de casa).

A celebração da Missa de Domingo de Páscoa, era por si só, sinal de alegria. A povoação reunia-se no adro da igreja, uns para ir à Missa, outros para o convívio semanal.

Incumbidos pelos pais, nós os mais novatos, teríamos de estar presentes na celebração da Missa, mas com uma particularidade... O gosto especial de estar no coro da igreja, o que era fenomenal! Alguns malandrecos, tais como eu, passavam aquela hora da Missa a marcar, com a ajuda de uma moeda de "dois e quinhentos", as siglas do seu nome nas guardas do coro (eu, também ainda lá tenho a minha, datada a 1988). Nesta envolvênvia, existia um senão. A velha guarda, composta de homens maduros e de cabelos brancos (que colocavam seus chapéus pretos no banco a seu lado), ficavam sentados nos bancos mais atrás do coro. Nós os garotos, sentiamo-nos como quase que alunos desses senhores. Quando entre nós, saía uma gargalhada ou um riso mais valente, lá vinha um "xiuuuuuuuuuuuuuuuuuu" ou até mesmo um belo puxão de orelhas.

O final da Missa, começava com o rebater dos sinos da torre da igreja que durava a tarde toda de Domingo. Várias equipas de jovens se revezavam para que os sinos não se calassem. Não parece, mas aquilo de puxar as cordas de forma alternada e sempre com um ritmo infernal, fazia doer os braços.

O já falecido, "Zé Cheva" era pessoa sempre presente nestas coisas. Era ele que garantia o ritmo do bater no sino mas sobretudo, a qualidade das cordas. Sim, estas eram de nylon que passavam (e ainda passam) por dentro de um tudo metálico que as conduz aos sinos. As extremidades desses tubos tinham farpas que não ajudavam à durabilidade das cordas.

Começava, então, a volta do Padre Agostinho pelas casas da aldeia levando consigo Jesus Cristo na Cruz abençoando as casas por onde ia entrando. Esta volta começava pelas casas mais próximas á igreja, normalmente, pela rua trás de igreja, com direcção ao casalinho, passava para o bairro Sra da Serra, centro do povo e só lá para o final do dia, chegava aos cabeços e marrada.

O compasso passava de rua em rua e ouvia-se a campainha sonante a avisar da sua chegada. "Vem aí a Cruz" diziam donos das casas correndo a abrir as suas portas!


Normalmente era na sala das casas que se recebia o Padre. Os donos, familiares e amigos faziam uma roda, encostados de costas para as paredes, e aí, de uma forma comovida e alegria realmente sentida, beijavam a Cruz de Jesus Cristo ressuscitado à medida que ia passando.

À saida, o sacristão já com o sino virado ao contrário, dirigia-se ao dono da casa e era sinal de pedir uma moedinha para ele.

Normalmente, em casas de maior abundância, após a a passagem do Padre, os donos vinham à varanda da sala, metiam a mão no bolso e mandavam uma moeditas juntamente com uns rebuçados para a malta nova que cá fora já estava à sua espera.

No dia de Segunda-feira, o ritual repetia-se na Torre e casas que estavam mais isoladas da povoação, nomeadamente, na Oles.

Esta tradição acabou na nossa aldeia. Até então, a celebração da Missa de Domingo de Páscoa ainda marca a presença com muita alegria, ainda se tocam os sinos da torre da igreja mas, já não pela tarde toda, e muito menos com o arrebate de antigamente. As famílias continuam a estar presentes como forma de festividade e alegria mas, já não se visitam entre casas, as pessoas presentes são cada vez menos, mas ...(quantos mas ainda faltam???).

Estamos em 2011, os festejos da Páscoa aproximam-se e, é com muita alegria e satisfação que comunico, desde já, que este ano será retomada a volta dada pelo Sr Padre pelas casas da nossa aldeia. O reviver dos tempos antigos (a mais de 25 anos), será um dos pontos fortes mais esperado.



xxcucoxx




3 comentários:

Anónimo disse...

Bonito…
Sem comentários…

… Acho que este ano esta tradição vai voltar.
Espero que sim e que seja para continuar…
JB

Anónimo disse...

boas lembrancas

Telmo Domingues disse...

Passados mais de 25 anos parte da aclamada tradição pascal volta às ruas da aldeia, esperamos grande receptividade por parte da população, esperamos.

Cumprimentos a todos os "cucos".