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13 de outubro de 2011

Chegou a hora de mais um ajuste de contas

Bom Dia,

Não hesitei em partilhar. A respeito deste tema, provavelmente, o melhor artigo que já tenha lido.


"O galopante despovoamento das áreas rurais já foi justificativo para o fim de muitos serviços. As freguesias são, apenas, o último elo a cair

O INSTINTO natural ainda é o de resistência. É-o e foi-o por entre uma vida sem beneplácitos ou dádivas, onde os destinos foram traçados nos sulcos da terra. Sem ilusões a rasgar caminhos que iriam inevitavelmente esbarrar a lado algum ou, como queiram, no infame muro da pobreza. Já foram lugares de gentes sobreviventes em geografias áridas de oportunidades, numa ruralidade côncava num Portugal que vai longínquo, naquele Portugal amordaçado e recolhido, onde a visão pouco mais alcançava do que a extremidade do cabo de uma enxada. No guinar de um arado com olhar curvo no amanhar da terra, o sonho morava longe.

Estas mesmas geografias de esperanças coertadas tiveram que ser vencidas, obrigando a que os olhares se erguessem para além dessas montanhas e se alimentassem outras esperanças, de outras dignidades. Quando, por fim, o sonho se insuflou, partiram para além destas montanhas. Muitos mesmo para além da grande montanha dos Pirenéus. Para as cidades, para o estrangeiro, para longe. Ficaram os que ficaram. Ficaram os que quiseram e os que não puderam. Todos os outros foram. Ficou a saudade nas terras que engrossaram a emigração.
O tempo continuou a vaguear por estas aldeias da Beira e tratou de compor a inevitabilidade. Os anos após os anos, as décadas que sucederam às décadas, não foram mais do que somatórios e repositórios de razões para o Interior se continuar a esvaziar. A galope. Depois, sim, soou o uivo dos números da racionalidade: Fechar! Acabar! Extinguir! Foram-se as gentes. Foram-se as escolas, foram-se as extensões de saúde, foram-se os transportes públicos.

“Não há gente!”
E como poderia haver?

Mas há rácios, proporções, rentabilidades, densidades. As benditas densidades populacionais onde encontramos demasiada geografia para tão pouca gente.

Chegou, então, mais um acerto de contas. Na Beira Interior, centenas de freguesias rurais estão na primeira linha da extinção. Um olhar pelo mapa coloca à cabeça mais de 200 territórios desta tipologia no fio da navalha por não cumprirem os critérios mínimos de população, que pode variar entre os 500 e os 150 indivíduos consoante os critérios previstos na reforma. O corte tem especial incidência nos concelhos menos populosos da região (e há muitos onde a população total não chega sequer aos dez mil habitantes), onde apenas os critérios do regime de coesão - que permitem que em municípios que perderam mais de dez por cento da população nos últimos dez anos possam baixar a fasquia de sobrevivência das suas freguesias rurais para 300 ou até para 150 habitantes - impedem que o cenário seja ainda mais drástico. A racionalização do território ditou esta reforma. Tem a sua lógica? Terá.


Jornal do Fundão - Edição Online de 12 Out 2011, 15:36h
Fonte: http://www.jornaldofundao.pt/noticia.asp?idEdicao=105&id=7761&idSeccao=981&Action=noticia

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