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5 de julho de 2012

80 Anos da “Fonte Nova” – Símbolo do Tempo

A Fonte Nova - Obra da Ditadura

Quantas vezes, na minha infância e na companhia dos da minha idade, apanhamos bichos logo ali ao lado no jardim da conhecida como “Casa do Padre” e os demos como alimento aos peixes do tanque deste lindo chafariz! Havia dias que os tentávamos enganar com pequenas pedrinhas do mesmo tamanho mas, não o conseguíamos fazer. Eram de imediato expulsas por eles.

Quantas foram as muitas e indetermináveis histórias que ali se viveram, também logo ali ao lado por quanto da existência do antigo café da Ti Espírito Santo! Tudo leva o tempo e nada nos deixa.

Quero desta feita, aqui referir-me àquele emblemático chafariz que ali se posiciona há 80 anos. Para ser franco, tenho sido um de tantos de nós que passam e que nunca fizemos contas à idade, embora, lá se encontre em bom relevo inscrita da data da sua construção (ano de 1932). Foi o Dr. Campos, médico da aldeia, que mandatou a construção desta obra-prima neste local (contra à vontade do Dr. José Ramos Preto).



Construída por grandes e aprumados blocos de granito (do bem duro), ergue-se com duas bicas (uma de cada lado), assenta no centro de um tanque (também feito por grandes e largas lajes de granito). Fonte Nova, é ela como é conhecida.

Pelo nome que lhe terá sido atribuído, podemos presumir que, na altura da sua construção, fosse de facto a fonte mais nova no momento e na aldeia, face a outras já existentes.

Muitos de nós, também a conhecem como a Fonte da Ditadura. E provavelmente, serão estes que os de melhor razão, pois reparem:

Recorrendo à história de Portugal, nomeadamente política, deparamo-nos que nesse preciso ano de 1932 (altura da construção deste chafariz), António Oliveira Salazar assume o governo iniciando assim um longo mandato como primeiro-ministro que durou cerca de 36 anos sob uma forte ditadura sob o povo português. O chamado “Estado Novo Português”.


Portanto, torna-se fácil a interpretação do nome deste chafariz tendo em conta as condições temporais e históricas do país.

Por outro lado, Dr. José Ramos Preto, talvez o mais prestigiado político republicano desta região, (foi deputado, ministro e chegou a ser indigitado para primeiro ministro) e amigo pessoal de Afonso Costa (ambos estudaram em São Fiel), tinha a sua casa muito perto do local onde fora construído o fontanário.

Em 1932, já teria regressado à região onde foi reitor do Liceu de Castelo Branco, governador civil e director do reformatório de São Fiel. Numa das idas de fiscais do Governo do Estado Novo a São Fiel, ordenaram ao director (Dr. José Ramos Preto) a retirar da parede do seu gabinete o retrato de Afonso Costa. Foi-lhes dito que o tirava, mas que o levava para sua casa. Mais tarde, entregou-o aos herdeiros de Afonso Costa, entretanto falecido no exílio, em Paris.

Ao saber de tal atitude, Salazar terá afirmado: "Eu gostaria de ter um amigo como o Dr. José Ramos Preto".

Presume-se assim que, a inscrição “Obra da Ditadura” no granito do fontanário (enquanto da sua construção) terá sido uma atitude de desafio ou provocação ao novo regime Estado Novo iniciado nesse mesmo ano.

xxcucoxx

2 comentários:

Lúcio Sousa disse...

O nome ditadura na inscrição da fonte terá mais a haver com o regime na altura antecessorao estado novo a "ditadura militar", chefiada por Óscar Carmona, a isso que deve o seu nome que lhe dedicaram na praça "Marechal Carmona"

Carlos Domingues disse...

Bom caro Amigo Lúcio Sousa,

Bem-haja pelo seu contributo relativo ao tema. Iremos fundamentar ainda mais tal assunto mas, fica a pergunta: Quem terão ido os seus construtores.

xxcucoxx