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4 de setembro de 2012

A "Taberna" agora, Café Frade - Uma história



Eu era pequeno, não teria sequer os meus cinco anos de idade. O meu pai saia pelas 7 horas da manhã da segunda-feira e regressava pelas tardias 18 horas da sexta-feira dessa mesma semana. Trabalhava na Covilhã onde sempre trabalhou. A minha mãe foi sempre a dona lá de casa. O meu irmão ainda não era nascido. Face a ausência semanal por parte do meu pai, as tarefas hortícolas eram garantidas pela presença e cuidados da minha mãe.

Entretanto, perante o falecimento da minha avó paterna (o meu avô paterno já tinha falecido há alguns anos), entre os três irmãos, o meu pai herdou uns terrenos lá para os lados das mais conhecidas “Azenhas Fundeiras”. Um lugar que o viu nascer e que se situa entre a Torre e Casal da Serra.

Nós vivíamos na casa onde nasci, em Louriçal do Campo, claro! Uma casa muito modesta e humilde. Na altura, era da pertença do meu saudoso (também já falecido) e tio António Domingues (irmão do meu pai). A sua localização ainda hoje é favorável. Logo ali ao lado da Fonte de S. Sebastião, mais precisamente à entrada dos conhecidos “cabeços”, (para quem conhece).


Por via das circunstâncias, eu acompanhava a minha mãe para tudo o que fosse lado. Mas, nos períodos mais invernosos, enquanto a minha mãe se deslocada a tais terrenos, eu era deixado ao cuidado dos vizinhos e amigos da família, José Afonso (já falecido) e Ti Maria Luzia.

Nesses tempos o vizinho José Afonso era funcionário dos Caminhos de Ferro. Andava por lá pelas bandas do Entroncamento dias seguidos e quando regressava a casa, quase que tinha outros tantos de descanso.

Já na Aldeira, após o jantar, era comum ele ir até à “Taberna do Frade” beber o seu copinho de vinho (mas sempre do tinto).

Eu quando estava à sua guarda, também o acompanhava nessas visitas à Taberna. Lembro-me como se fosse hoje!! Levava-me ao colo, devidamente aconchegado para que o frio não se apoderasse de mim. A sua barba picava mas sabia bem o seu calor.

Chegados à Taberna do Frade, ele sentava-me no balcão enquanto ficava de pé. Eu de pernas entre abertas e ele entre as mesmas para que eu não caísse, pois o balcão era alto. Enquanto ele mandava vir o seu copinho de vinho, para mim era um embrulho de bolacha Maria (dos mais pequenos).

A Ti Conceição (também já falecida e que terra lhe seja leve), sempre sofreu de asma. Os ambientes de fumo de tabaco não lhe faziam nada bem. Por isso, e a determinada data do final da tarde, aparecia por ali o Ti Manel Frade (seu marido) para a substituir nos afazeres da Taberna.

Lá atrás na parte mais reservada, ainda lá está um poço onde, nos meses de maior calor, se refrescavam as grades da cerveja. Eram lá colocadas através de um guindaste e pelo mesmo, também eram retiradas para consumo.

Neste verão, entrei nesse café. Confesso que já não o fazia há mais de 10 anos. O Ti Manuel Frade, (com a sua idade que ninguém a perdoa), lá estava ele com o seu ar de maroto dado as boas-vindas a quem chega.

Entretanto, no meio de duas conversas curtas, dizia-me que apesar de menor número, os seus clientes estão fidelizados ao espaço e que "ainda vai dando!".

O Café Frade é uma casa de história em Louriçal do Campo e por essa razão, merece o seu especial destaque neste blog.
Saudações cucas.

xxcucoxx

7 comentários:

Cristina Breia disse...

Obrigada pelo teu documentário sobre o café frade

aluap disse...

Estas tabernas com o balcão alto (para nós crianças, claro!) marcaram uma época.
Que melhor homenagem a todos os "ti Zés Afonsos" e todos os taberneiros, senão divulgá-los?
Felizmente esse espaço ainda existe e resiste.
Depois...a fonte da imagem é bela e parece-me bem conservada, mas a casa ao lado também é muito bonita. Na fonte pintaram as juntas de branco, mas ficam mais bonitas as da casa da imagem, não acha?

Abraço

José Teodoro Prata disse...

Comunica comigo, pois tenho material para o teu blogue.
(teodoroprata@gmail.com)
Um abraço e bom trabalho!
José Teodoro (blogue Dos Enxidros)

xx cuco xx disse...

Boa noite Paula Albuquerque.

Fico muito contente com a participação activa no blog de Louriçal do Campo. É sempre bom saber que haja alguém de "fora" (que é o caso) que venha manifestar o seu agrado simpático e de forma interessante sob este espaço. Sabe que, na maioria das vezes, não são os santos da terra que fazem milagres!(infelizmente). Louriçal do Campo, pela sua aproximação à Serra da Gardunha, disfruta naturalmente da disposição da rocha granitica e que através dela, são construidas as habitações e afins.

Os fontanários existentes são também o seu reflexo permitindo assim também dar um reflexo da sua graça. A fonte que se apresenta, de facto, encontra-se em óptimas condições de conservação. Por isso, já a alguns anos que não tem sido palco de grandes ou pequenas obras.

Neste momento, existem outros fontanários que estão a ser restaurados pelos serviços da Junta de Freguesia e que a ela compete.

Refiro-me neste caso à Fonte Velha. Trata-se de um espaço magnifico atendendo ao seu retiro.

Faço votos para que faça continuidade ás suas visitas a este blog que lhe disperte algum interesse em conhecer esta aldeia magnifica. Ficariamos muito contentes.

Obrigado.

xxcucoxx

aluap disse...

Quando fôr para esses lados…quem sabe.
Quanto aos “santos da terra”, aprendi que não devemos esperar dos outros mais do que aquilo que eles conseguem dar e, sobretudo, não devemos colocar nas mãos dos outros o nosso bem estar (isto em qualquer área da nossa vida) – quem quiser apanhar o comboio, melhor, quem não quiser fica para trás. A memória e o património fazem-se por vezes com muito esforço, mas nunca sem vontade. No entanto, os seus conterrâneos têm-na, penso eu. Precisam é ser acordados. Apenas isso.
Não leve a mal este comentário “à parte”, mas algumas vezes também me sinto assim, empenhada, mas ao mesmo tempo desiludida. Você faz um excelente trabalho e os temas que apresenta muitos deles podiam ser da minha aldeia, daí se calhar as suas postagens despertarem interesse para qualquer pessoa de fora. Eu sempre leio os blogs que gosto, só que não tenho tempo de comentar todas as postagens.

Um abraço forninhense.

Anónimo disse...

Grande comentário este... Lembranças de criança, quando os vizinhos eram como se fossem familia, e lembrar estes episódios faz bem porque hj já não acontece isto, cada um vive só para si... Continua Carlos é fantástico ;) gosto

Anónimo disse...

Infelizmente no dia de hoje o Sr. Manuel Vaz deixou de estar entre nós.

Em sua homenagem deixo aqui o registo da origem da sua alcunha "Frade", nome que deu ao café.

Em finais do século XIX era o avô do senhor Manuel Vaz carpinteiro no Colégio de S. Fiel, um dos que ajudou a construir o altar da igreja (hoje desaparecido), trazia consigo o seu filho ainda criança ele aprendiz de carpinteiro, os padres jesuítas assim deram ao rapaz um traje como aquele que os estudantes do colégio vestiam na altura, passando cedo todas as manhãs para o trabalho vestido com o traje começou a ser chamado de fradinho (com falta de informação na altura algumas pessoas chamavam frades ao padres do colégio apesar de eles serem jesuítas e não franciscanos), e então todas as manhãs as mães faziam levantar os filhos dizendo "acorda que o fradinho já passou " visto que ele passava muito cedo tornou-se um dito popular que as mães diziam aos filhos na altura.

A alcunha "Frade" foi passando assim de geração, sendo assim pode ver a influência que o colégio de São Fiel teve indirectamente que dura até aos dias de hoje no nome de um café na aldeia imortalizado o senhor seu proprietário.