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30 de novembro de 2012

"A salto" nos anos 60. Por um conterrâneo.



O regresso a Hendaia 50 anos depois é regressar ao salto para fugir à ditadura, à repressão e à miséria. É retrilhar, com os mesmos pés, o caminho da emigração para França, e voltar à fronteira onde todas as coisas começavam.

As palavras são todas deles, dos dois homens que caminham, lado a lado, pela areia, a recordar a fuga, o salto e o medo. A caminhar em frente, 50 anos para trás, e a dizer, com todos os quilómetros ainda na memória, que, ao fundo, a cordilheira separava a ditadura da liberdade.

Abílio Laceiras, de 69 anos, e Manuel Dias Vaz, de 66, saíram - um do Fundão, outro de Louriçal do Campo, no distrito de Castelo Branco - clandestinos, a salto, do mesmo Portugal, o que Manuel descreve: o Portugal da ditadura, da repressão, da miséria e da guerra colonial.

“Eu cheguei a França em outubro de 1963. Cheguei a Hendaia [depois de ter andado] 23 dias a pé, porque o percurso da emigração clandestina era terrível. Era dramático, era uma epopeia”, recorda Manuel Dias Vaz, que é hoje presidente do comité nacional francês de homenagem a Aristides Sousa Mendes e da Rede da Aquitânia para a História e Memória da Imigração.

Abílio Laceiras, correspondente do Jornal do Fundão em Paris, e que conta décadas de militância associativa e sindical em França, chegou a Hendaia no final de 1968, “em plena revolução de maio”. Atravessou Espanha com onze homens e com a sua mulher, grávida.

Esperaram horas na fronteira, retidos, porque não traziam passadores. “Horas depois, de noite, com frio, eu dirigi-me aos carabineiros e disse: ’das duas uma: ou o senhor nos prende, ou nos deixa seguir. A minha mulher não pode continuar assim’”, recorda.

E seguiram, com “pão e três latas de sardinha”. Aqui, diz Abílio Laceiras, onde começava a liberdade, haviam de começar todas as coisas, as boas e as más. Depois desta linha havia de pagar “muito dinheiro” para que outro português lhe encontrasse trabalho. Havia até de pagar o aluguer dos pratos e dos talheres que usou.

Manuel Dias Vaz recorda o medo: “A memória que eu tenho da estação [de comboios] é o medo. O medo, porque nós não tínhamos a capacidade de compreender que tínhamos chegado a um país democrático e livre. Porque a liberdade e a democracia não faziam parte do nosso registo quotidiano, faziam parte do nosso combate”.

Os dois homens regressam a Hendaia – por onde se estima que tenham passado, entre 1957 e 1974, mais de um milhão de portugueses em direção à Europa, sobretudo a França – com emoção. Regressam solenes, quase peregrinos.

Esta é, explica Manuel Dias Vaz, uma cidade simbólica, por várias imagens: “a estação de caminho-de-ferro, pela qual transitaram os portugueses que vieram para a Europa; a fronteira dos Pirenéus; a ponte de Hendaia, que é o começo da Nacional 10, a que muitos chamaram o cemitério dos portugueses; e o mar, porque, nos anos de 1920, e mesmo nos anos de 1960, alguns portugueses vieram para França de barco”.

“Para mim, voltar a Hendaia hoje é uma peregrinação. É olhar para o passado para compreender o presente: milhares de portugueses são [de novo] condenados a emigrar e a história repete-se”, acrescenta.

Para Abílio Laceiras, regressar aqui é revisitar as perguntas de depois do salto, as que se faziam deste lado da fronteira, pela primeira vez: “Para onde é que a gente vai? Qual vai ser o nosso rumo? Qual vai ser o nosso futuro?”. É lembrar-se de que “o futuro de [muitos portugueses] e de muitos lusodescendentes se decidiu nesta terra”.

25 de novembro de 2012

Da azeitona ao azeite




Em todo o concelho de Castelo Branco, sempre se cultivou muito a oliveira. Foi sempreuma das principais riquezas da região, o azeite.

Louriçal do Campo, não fugiu à regra, a cultura da oliveira predomina, ainda hoje, embora muito abandonadas, se vê grandes oliveiras.
A oliveira sempre foi considerada uma árvore sagrada. Dela se extrai o azeite que ilumina na Igreja, a lâmpada do Santíssimo. Uma lamparina que de dia e de noite, ali está sempre presente.

Dos meus tempos de infância, permitam-me recordar que, não se deveria cortar qualquer ramo que fosse, até mesmo na época da apanha da azeitona. Aquele que partisse algum ramo, era mau apanhador e se tivesse o azar de partir muitos deles, não voltava mais àquele patrão. Começava a ganhar fama de partir muitos ramos, era mau apanhador, ninguém mais o chamava.

A oliveira desde que tratada convenientemente, dura séculos. Louriçal do Campo ainda se pode dar ao luxo de apresentar alguns desses exemplares.

Hoje, tudo mudou. Já não há quem apanhe a azeitona mesmo as poucas que restam. Ficam muitas vezes nas oliveiras por falta de força humana. Como se costuma dizer, "fica para os tordos".

Embora, talvez pelo momento de crise que vivemos, muitos dos jovens e filhos da Aldeia, já se preocupem em tirar uns dias de férias para ajudar apanhar a azeitona dos olivais que é da pertença dos seus pais.

Por esta altura, (meses de Novembro, Dezembro e até Janeiro), toda a povoação se mobiliza para a apanha da azeitona para que possam ter azeite para o próximo ano.
Em Louriçal do Campo, a apanha da azeitona ainda é feita de forma muito tradicional. As escadas feitas de varas de pinheiros, (umas maiores outras mais pequenas, conforme o tamanho das oliveiras) são encostadas à árvore para que desta forma, seja possível a apanhada a azeitona.



São ainda colocados longos e largos panais em redor da árvore para que seja proveitoso o ajuntamento da azeitona.

Chegados a casa, umas vezes antes de jantar outras depois, há que escolher a azeitona de todas as suas impurezas (folhas, ramos, paus, musgo etc).

Hoje, as azeitonas já não vão para as tulhas como dantes e já não levam quaisquer quantidades de
sal para a sua conserva. É apanhar, limpar e levar de imediato para o lagar mais próximo e, consegue-se logo de imediato um bom azeite e de reduzida acidez.

Os lagares antigos acabaram. Agora são utilizados lagares modernos, com boas prensas eléctricas.

Na nossa Aldeia existiu um dos melhores lagares da região – O Lagar dos Custódios. Há muitos anos que se encontra desactivo.

Há outras técnicas de apanhar azeitona, mas para a nossa região não tem dado resultados, não é adequada. Os terrenos são muito acidentados e as oliveiras de grande porte, pelo que não foram preparadas para se adaptarem a essas técnicas modernas.

xxcucoxx

9 de novembro de 2012

A imagem da Sagrada Família

Nas outras aldeias não sei como seja mas, relativamente a Louriçal do Campo e sobre este tema, sinto-me com um à-vontade suficiente para poder transmitir os meus conhecimentos nesta área de interesse. Certamente que haverá outras tantas personalidades residentes que, melhor que eu, o poderão fazer mas, atendendo à distância, de momento, não podemos recorrer a estas para aqui dar mais alguma ênfase ao tema.


O oratório da Sagrada Família


Neste âmbito e por uma questão de logística e organização geográfica, Louriçal do Campo está caracterizado por bairros (zonas devidamente definidas) que, cada uma delas tem a "circular" uma imagem da Sagrada Família.

Cada família, desde que associada e pertencente a estes bairros, recebe na sua casa uma vez por mês, o oratório da Sagrada Família que, perante do mesmo, deverão ser feitas as orações familiares.

Esta recepção é feita, normalmente, ao cair da noite pelo vizinho que antecede esta casa. Os associados estão inscritos na parte traseira do oratório e por isso, torna-se fácil a ordem de entrega ao vizinho que se segue.

Recebido o oratório, este permanece no lar 24 horas, onde uma vela ou um candeeiro de azeite o deverá iluminar. As rezas familiares deverão ser feitas enquanto aí permanece.

Por vezes, há esmolas a oferendar. Para isso, no oratório existe uma pequena ranhura onde poderão ser depositadas.

Passadas 24 horas, está na hora de entregar o oratório da Sagrada Família ao vizinho que se segue e inscrito como associado.

Chegado o fim dessa listagem, retoma-se de novo a entrega ao primeiro associado.

Estas imagens são réplicas de outras bem mais antigas que, caindo em desuso, se esqueceram no tempo e que, hoje, ninguém sabe onde estão. Presumívelmente e certamente em algumas casas na aldeia que todos nós, com o passar dos tempos, lhes perdeu o rumo.
xxcucoxx