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2 de fevereiro de 2013

AS AZENHAS DA TORRE

 

FREGUESIA DE LOURIÇAL DO CAMPO - AS AZENHAS DA TORRE


Foram as azenhas, num passado recente a base da economia local transformando os cereais que germinavam nos campos do Louriçal e povos confinantes, estes alimentaram durante gerações as 21 azenhas e 6 moinhos que hoje são pardieiros na área da Torre, incluídas num total de 37 conhecidas na freguesia de Louriçal do Campo. O pleno desaparecimento das azenhas provocou ao lugar uma menos valia didáctica, histórica, cultural e tecnológica. Para além de ser acompanhado do desaproveitamento de materiais e mão de obra local, e não procedido do aproveitamento em termos históricos e de economia cultural.

A nostalgia das azenhas intensifica-se nos conterrâneos descendentes deste Lugar, nomeadamente nos que desencalcaram e tactearam a farinha ao cair no tremonhado, dormiram ao ranger da entrosa, canto da pedra e serenidade da água nos covelos da roda, acordando com o aviso do chocalho que caia na mó junto ao cambal, avisando o moleiro da aproximação da pedra a entrar em vão.

Nas azenhas da Torre, a força da água nos covelos da roda não se avaliava em Watts e/ou cavalos-vapor, esta calculava em tornadouros, sendo um tornadouro a quantidade de água necessária para regar a pé, exigindo a azenha para trabalhar em condições consideradas óptimas 3 a 4 tornadouros.

Foi nestes engenhos que se moeu a farinha para o pão, normalmente cozido nos fornos de utilidade comunitária que alimentou muitas povoações incluindo os animais que as famílias possuíam e que atingiam as várias centenas, senão milhares. Os moleiros angariavam os cereais, dos quais a região era auto-suficiente e distribuíam a farinha com os seus machos e burros pelos fregueses, das freguesias e lugares de Louriçal do Campo, Soalheira, Casal da Serra, S. Vicente da Beira e outras mais distantes tais como a Lardosa, Vale da Torre, Lousa, Escalos, Tinalhas, Ninho do Açor, Sobral do Campo, Paradanta, Partida, Vale de Urso, Mourelo, Estreito, Pereiros e Almaceda .

Neste território de azenhas, em tempos remotos, existiram duas que trabalhavam em exclusivo 2 dias por semana para o exército português sediado em castelo branco, existindo normas que impunham a montante o integral encaminhamento das águas para as mesmas nos dias instituídos, impedindo as regas e/ou qualquer outra utilização. Assim como em tempos já pouco recordados por este povo, existiu uma azenha que trabalhava a tempo inteiro exclusivamente para o Reformatório Central de S. Fiel.

É pensando nestas 26 azenhas e 11 moinhos, hoje pardieiros, que esperamos que seja disponibilizado um fundo que responda à ambiciosa e singular recuperação, conforme oportunamente prometido, nomeadamente no folheto da eleições de 2005 e ainda com particular destaque por quem de direito, garantindo assim a história viva, atenuando a nostalgia e enriquecendo a freguesia. O povo da Torre, ciente da valorização desta pretensão e confiante no vigor de quem nos representa, está certo que o seu alcance é possível e conforme prometido será cumprido.

Das azenhas resta, entre muito poucos habitantes, o “vocabulário local” das suas peças, acessórios e equipamentos. Mas, como os Homens são de memória curta e quando não há história para avivar a memória tudo se perde, pois só a história escrita aviva a memória, para garantir a transmissão da história às gerações vindouras, este “vocabulário” deve ser preservado.



 







Por Carlos Vaz de Deus


2 comentários:

aluap disse...

Com este levantamento está a fazer um excelente trabalho de divulgação histórica e mostra aspectos importantes da arquitectura popular, parabéns.
Que haja sensibilidade e vontade para valorizar este património e que se registe o "vocabulário local" e se passe a uma nova geração como eram os modos de vida do mundo rural do tempo desses moleiros e de todas as famílias que utilizavam estes engenhos e os fornos comunitários.
Sou de outra aldeia e concelho, mas os objectivos de divulgação das terras do interior são comuns.

Saudações forninhenses.

Anónimo disse...

Obrigada por mais este fantástico trabalho Carlos... Adorei mesmo!