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9 de novembro de 2011

A apanha da azeitona



Em todo o concelho de Castelo Branco, sempre se cultivou muito a oliveira. Era uma das principais riquezas da região, o azeite. Louriçal do Campo, não fugiu à regra, a cultura da oliveira predominava e ainda hoje, embora muito abandonadas, se vê por todo o lado, grandes oliveiras. Em redor da povoação está a prova evidente do que afirmo, está cercada por todo o lado de boas oliveiras, agora, algumas, mal tratadas. A oliveira era considerada uma árvore sagrada. Dela se extraía o azeite que iluminava e ainda hoje ilumina, na Igreja, a lâmpada do Santíssimo. Uma lamparina que de dia e de noite ali está sempre acesa.


Hoje, corta-se uma oliveira por este ou aquele motivo mais fortuito.

 
Recordo-me de não se cortar qualquer ramo, até na apanha da azeitona, aquele que partisse algum raminho, era mau apanhador e se tivesse o azar de partir muitos, se por acaso andava a trabalhar por conta de outro, não voltava mais àquele patrão. Começava a ganhar fama de partir muitos ramos, era mau apanhador, ninguém mais o chamava. Era assim, havia fartura de mão-de-obra e falta de trabalho.

 
Hoje virou-se o filme ao contrário, ou bem ou mal não há quem as apanhe e as poucas que restam, ficam muitas vezes nas oliveiras por falta de força humana.

 
As oliveiras eram todos os anos limpas dos paus secos, rama que desse azeitonas não era cortada.

 
O chão era cavado também anualmente e iam buscar muito mato que era enterrado conjuntamente com a cavagem, para estrumar a terra. Outros deitavam-lhe bom estrume dos animais. Não deixavam crescer ervas, silvas ou mato nas oliveiras e a sua rama parecia prata.

 
Havia grandes oliveiras, ainda hoje se vêm alguns troncos de grandes árvores centenárias. A oliveira se for tratada convenientemente, dura alguns séculos. Ao contrário, também se perde com facilidade, embora os seus troncos, muito rijos, durem muitos anos.

 
Para a apanha da azeitona, no devido tempo, Novembro, Dezembro, Janeiro e até Fevereiro, era mobilizada toda a povoação. Todos os habitantes, uns mais outros menos, tinham azeite para seu gasto e alguns até vendiam para fora da terra.

 
A apanha da azeitona era feita directa, ou seja, com escadas feitas de varas de pinheiros, umas maiores outras mais pequenas, conforme o tamanho das oliveiras a apanhar.

 
Organizavam-se grandes ranchos e todos em cima das escadas a apanhar, conversavam e cantavam, por vezes ao desafio. Era bonito !...

 
Como os dias de inverno são mais pequenos, de madrugada, ou muitas vezes de véspera, à noite ao luar, iam buscar um molho de mato e manhã cedo, comiam a "dejua," (café). O almoço era comido no olival, de pé, não se podia demorar muito. Normalmente era comida de seco. À noitinha, no final do dia, carregava-se tudo. Os homens transportavam duas ou três escadas, As mulheres, traziam os sacos das azeitonas ou as cestas. As pessoas de mais idade, que já mal podiam andar em cima das escadas, apanhavam as azeitonas que caíam para o chão.

 
Chegados a casa, umas vezes antes de jantar outras depois, havia a tarefa de escolher as azeitonas que consistia em limpar as mesmas de todas as impurezas, folhas, ramos, paus, musgo etc.


As azeitonas mantinham-se nestas tulhas e assim salgadas, algum tempo, por vezes até meses. Até o lagareiro ter vez para as fazer. Quando chegava a altura de irem para o lagar e eram retiradas das tulhas, as azeitonas estavam cheias de bolor, em bolo, todo branco. Quando isso acontecia, diziam, “vão ser boas, vão fundir muito!...”

O azeite nestas condições, saía sempre com muita acidez, no entanto, os residentes gostavam. Foram assim criados com esta situação, mas quando saíam da aldeia e nas cidades comiam azeite com menos acidez, embora não fosse tão puro, era difícil depois chegar à aldeia e voltar a comer o azeite de lá , embora se soubesse que não tinha qualquer outra mistura.

 
Hoje, as azeitonas já não vão para as tulhas e não levam qualquer quantidade de sal. É apanhar e levar para o lagar e consegue-se bom azeite e com reduzida acidez.

Os lagares antigos acabaram. Agora são utilizados lagares modernos, com boas prensas eléctricas, com maior rapidez, embora tenhamos que nos deslocar a alguns quilómetros de distância.

 
A nossa terra que teve um dos bons lagares, que neste momento, está reduzida a zero, e a continuar assim , qualquer dia ninguém apanha azeitona. Os novos ausentaram-se e os poucos velhos que ainda existem, não são capazes de fazer estes serviços.

 
Hoje, a maior parte dos olivais estão abandonados e a azeitona não é apanhada.

O futuro não se apresenta nada risonho para a nossa região. As culturas tradicionais irão acabando. O abandono é já quase total pelo que não sei como terminará esta viagem!...


xxcucoxx

2 de novembro de 2011

A chegada da Romã. É Outono !!


A romã tem história. Para os iranianos, Eva foi traída não por uma maçã mas sim por uma romã. Um pouco mais a norte, o seu número excessivo de sementes e cor fazem com que os gregos ainda hoje mantenham a tradição de abrir uma romã nos casamentos para atrair a fertilidade.

A romã tem beleza. É uma preciosidade da natureza a envolvência de numerosas sementes carnudas de cor vermelha numa casca com epílogo em forma de coroa.

A romã tem saúde. É muito provavelmente o fruto com maior potencial “medicinal” comprovado. Neste contexto, o seu elevado teor em polifenóis impede o “mau” colesterol (LDL) de ser oxidado, sendo que é esta oxidação a responsável pela formação das placas ateroscleróticas que podem causar trombos indesejáveis. Esta capacidade de “limpeza” dos vasos sanguíneos demonstrou igualmente efeitos na melhoria da quantidade de oxigénio captada pelo músculo cardíaco de pacientes com doença coronária e também um potencial benefício no combate à disfunção eréctil.

A sua tremenda capacidade antioxidante (quase 3 vezes superior à do vinho tinto e chá verde) tem revelado resultados promissores quer na prevenção de alguns cancros (próstata e mama) quer na diminuição da inflamação característica da artrite e consequente atenuação da sua sintomatologia.

Foi relatado em alguns estudos uma interacção entre a romã (mais propriamente o sumo de romã) e alguns anticoagulantes. Apesar de muito remota e da escassa evidência desta associação, o mais recomendável é consultar o seu médico se estiver a tomar este tipo de medicação, antes de ingerir este precioso fruto.

As características nutricionais da romã são concordantes com o seu potencial terapêutico, dado que para além da sua riqueza em vitaminas e minerais e baixo valor calórico, algo que é inerente à grande maioria dos frutos, a romã exibe uma quantidade assinalável de fibra que a distingue dos seus similares.

Deste modo, aproveite esta dádiva da natureza nestes meses e entre no Outono da melhor forma!

xxcucoxx

27 de outubro de 2011

Uma vida, um testemunho agora homenagiado



No dia 25 de Março de 2006, faleceu em Orjais, concelho da Covilhã, onde residia, o Padre José dos Santos Serra. No dia seguinte o Senhor Bispo presidiu à Eucaristia exequial em Orjais, e concelebrada por vários sacerdotes. A seguir foi a sepultar em Louriçal do Campo, sua terra natal.

O Padre José dos Santos Serra era natural de Louriçal do Campo, arciprestado de Alpedrinha. Nasceu a 3 de Outubro de 1916. Foram seus pais José dos Santos Martinho Serra e Maria da Conceição Vaz. Frequentou os Seminários Diocesanos de 1928 a 1938. Foi pároco das freguesias de Terrenho e Torre do Terrenho (10-02-1940); Coadjutor da Sé e S. Vicente da Guarda (1-12-1961); Pároco do Telhado e Souto da Casa (1943); Pároco de Vale de Prazeres (29-04-1949); Pároco de Orjais desde 1950 até 2003; em 1998 foi nomeado pároco de Aldeia do Souto.

Agora,

"Um amigo do amigo, homem que contribuiu para o desenvolvimento da freguesia, pessoa doce mas determinada, às vezes mesmo teimosa, um conselheiro, uma pessoa que ficou após a partida. Muitos adjectivos, nomes, para descrever o padre José dos Santos Serra, falecido em 2006, mas que a população da freguesia de Orjais decidiu homenagear no passado domingo, 23, com a inauguração de um busto no largo da Amoreira, o principal da aldeia.

De facto, foi ali que a Comissão da Fábrica da Igreja e população quiseram perpetuar a memória de um homem que durante 53 anos esteve na paróquia, numa iniciativa inserida nas comemorações do Dia da Cidade da Covilhã. Uma escultura da autoria de Paulo Moura que, segundo o presidente da Junta de Freguesia de Orjais, António Pinto, visa distinguir um homem que “contribuiu para grandes obras” graças à sua determinação e, às vezes, “teimosia. Foi com isso que conseguiu sempre fazer alguma coisa” afirma o autarca, que lembra uma “grande conselheiro”, uma pessoa com “força de querer e saber”, um “carácter forte”. Uma “grande perda” para a freguesia e concelho.

Segundo o representante da Comissão da Fábrica da Igreja, o padre Serra fiou intimamente ligado a obras como a construção do Centro Paroquial, a sala mortuária, o alargamento da Igreja Matriz, a Capela da Borralheira e ou as moradias do Brejo.

Numa cerimónia à que muita população se juntou, bem como familiares do padre, o presidente da Câmara, Carlos Pinto, destacou a “justíssima” homenagem em memória de uma pessoa amável e boa, doce, “mas muito determinada. É uma pessoa que fica depois de partir” frisa o autarca, que considera o padre Serra um “exemplo para as novas gerações”."

In Edição Online de Notícias da Covilhã


xxcucoxx

13 de outubro de 2011

Chegou a hora de mais um ajuste de contas

Bom Dia,

Não hesitei em partilhar. A respeito deste tema, provavelmente, o melhor artigo que já tenha lido.


"O galopante despovoamento das áreas rurais já foi justificativo para o fim de muitos serviços. As freguesias são, apenas, o último elo a cair

O INSTINTO natural ainda é o de resistência. É-o e foi-o por entre uma vida sem beneplácitos ou dádivas, onde os destinos foram traçados nos sulcos da terra. Sem ilusões a rasgar caminhos que iriam inevitavelmente esbarrar a lado algum ou, como queiram, no infame muro da pobreza. Já foram lugares de gentes sobreviventes em geografias áridas de oportunidades, numa ruralidade côncava num Portugal que vai longínquo, naquele Portugal amordaçado e recolhido, onde a visão pouco mais alcançava do que a extremidade do cabo de uma enxada. No guinar de um arado com olhar curvo no amanhar da terra, o sonho morava longe.

Estas mesmas geografias de esperanças coertadas tiveram que ser vencidas, obrigando a que os olhares se erguessem para além dessas montanhas e se alimentassem outras esperanças, de outras dignidades. Quando, por fim, o sonho se insuflou, partiram para além destas montanhas. Muitos mesmo para além da grande montanha dos Pirenéus. Para as cidades, para o estrangeiro, para longe. Ficaram os que ficaram. Ficaram os que quiseram e os que não puderam. Todos os outros foram. Ficou a saudade nas terras que engrossaram a emigração.
O tempo continuou a vaguear por estas aldeias da Beira e tratou de compor a inevitabilidade. Os anos após os anos, as décadas que sucederam às décadas, não foram mais do que somatórios e repositórios de razões para o Interior se continuar a esvaziar. A galope. Depois, sim, soou o uivo dos números da racionalidade: Fechar! Acabar! Extinguir! Foram-se as gentes. Foram-se as escolas, foram-se as extensões de saúde, foram-se os transportes públicos.

“Não há gente!”
E como poderia haver?

Mas há rácios, proporções, rentabilidades, densidades. As benditas densidades populacionais onde encontramos demasiada geografia para tão pouca gente.

Chegou, então, mais um acerto de contas. Na Beira Interior, centenas de freguesias rurais estão na primeira linha da extinção. Um olhar pelo mapa coloca à cabeça mais de 200 territórios desta tipologia no fio da navalha por não cumprirem os critérios mínimos de população, que pode variar entre os 500 e os 150 indivíduos consoante os critérios previstos na reforma. O corte tem especial incidência nos concelhos menos populosos da região (e há muitos onde a população total não chega sequer aos dez mil habitantes), onde apenas os critérios do regime de coesão - que permitem que em municípios que perderam mais de dez por cento da população nos últimos dez anos possam baixar a fasquia de sobrevivência das suas freguesias rurais para 300 ou até para 150 habitantes - impedem que o cenário seja ainda mais drástico. A racionalização do território ditou esta reforma. Tem a sua lógica? Terá.


Jornal do Fundão - Edição Online de 12 Out 2011, 15:36h
Fonte: http://www.jornaldofundao.pt/noticia.asp?idEdicao=105&id=7761&idSeccao=981&Action=noticia

xxcucoxx