Quantas vezes, na minha infância e na companhia dos da minha idade, apanhamos bichos logo ali ao lado no jardim da conhecida como “Casa do Padre” e os demos como alimento aos peixes do tanque deste lindo chafariz! Havia dias que os tentávamos enganar com pequenas pedrinhas do mesmo tamanho mas, não o conseguíamos fazer. Eram de imediato expulsas por eles.
Quantas foram as muitas e indetermináveis histórias que ali se viveram, também logo ali ao lado por quanto da existência do antigo café da Ti Espírito Santo! Tudo leva o tempo e nada nos deixa.
Quero desta feita, aqui referir-me àquele emblemático chafariz que ali se posiciona há 80 anos. Para ser franco, tenho sido um de tantos de nós que passam e que nunca fizemos contas à idade, embora, lá se encontre em bom relevo inscrita da data da sua construção (ano de 1932). Foi o Dr. Campos, médico da aldeia, que mandatou a construção desta obra-prima neste local (contra à vontade do Dr. José Ramos Preto).
Construída por
grandes e aprumados blocos de granito (do bem duro), ergue-se com duas bicas
(uma de cada lado), assenta no centro de um tanque (também feito por grandes e
largas lajes de granito). Fonte Nova, é ela como é conhecida.
Pelo nome que
lhe terá sido atribuído, podemos presumir que, na altura da sua construção,
fosse de facto a fonte mais nova no momento e na aldeia, face a outras já
existentes.
Muitos de nós, também a conhecem como a Fonte da Ditadura. E provavelmente, serão estes que os de melhor razão, pois reparem:
Recorrendo à história de Portugal, nomeadamente política, deparamo-nos que nesse preciso ano de 1932 (altura da construção deste chafariz), António Oliveira Salazar assume o governo iniciando assim um longo mandato como primeiro-ministro que durou cerca de 36 anos sob uma forte ditadura sob o povo português. O chamado “Estado Novo Português”.
Portanto, torna-se fácil a interpretação do nome deste chafariz tendo em conta as condições temporais e históricas do país.
Por outro lado,
Dr. José Ramos Preto, talvez o mais prestigiado político republicano desta
região, (foi deputado, ministro e chegou a ser indigitado para primeiro
ministro) e amigo pessoal de Afonso Costa (ambos estudaram em São Fiel), tinha
a sua casa muito perto do local onde fora construído o fontanário.
Em 1932, já
teria regressado à região onde foi reitor do Liceu de Castelo Branco,
governador civil e director do reformatório de São Fiel. Numa das idas de
fiscais do Governo do Estado Novo a São Fiel, ordenaram ao director (Dr. José
Ramos Preto) a retirar da parede do seu gabinete o retrato de Afonso Costa.
Foi-lhes dito que o tirava, mas que o levava para sua casa. Mais tarde,
entregou-o aos herdeiros de Afonso Costa, entretanto falecido no exílio, em
Paris.
Ao saber de tal
atitude, Salazar terá afirmado: "Eu gostaria de ter um amigo como o Dr.
José Ramos Preto".
Presume-se assim que, a inscrição “Obra da Ditadura” no granito do fontanário (enquanto da sua construção) terá sido uma atitude de desafio ou provocação ao novo regime Estado Novo iniciado nesse mesmo ano.
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